Juventude Maldita
Entrevista por André Honey em 31/01/2012
Muito consciente do que faz, Demente se mantém na ativa há quase duas décadas. Seja participando de diversas bandas, produzindo e lançando discos ou administrando um dos espaços mais interessantes para o público punk em São Paulo, o Estúdio Noise Terror, ele sabe que não pode parar. Nesta entrevista, trocamos ideia sobre música focando em seu trabalho com a banda Juventude Maldita, que completa 15 anos e promete material novo para 2012.
Atualmente, além da Juventude Maldita, você está envolvido com quais outras bandas?Demente: Atualmente, apenas com o Phobia e a Juventude Maldita.
Você entrou pro Phobia em 1995. Como você chegou ao punk rock? Quais bandas foram importantes na sua formação como punk rocker?
Demente: Entrei no Phobia através de um anúncio colado na porta da extinta loja Decontrol, do Fabião, do Olho Seco, na Galeria do Rock. Aliás, eu guardo esse anúncio até hoje, o papel tá todo amarelado Nessa época eu já pirava em algumas bandas punks nacionais, principalmente Inocentes, Garotos Podres e Replicantes, e já tocava um pouco de guitarra, queria tocar numa banda... Depois acabei conhecendo o Cólera, Restos de Nada e ARD, e mais várias outras bandas nacionais que pirei muito. Só fui me interessar pelo som punk gringo um pouco mais tarde e aí o que me pegou mesmo foram os Newtown Neurotics, Anti-Pasti, Blitz, Clash, Stiff Little Fingers, Sham 69, Cock Sparrer, Ramones, Misfits, Dead Boys, Chaos UK, Dead Kennedys e aí terminou de foder tudo...

A música "Explorados", do disco "Germinal" (2006, Juventude Maldita), é uma das minhas preferidas de vocês, um grito de guerra do proletariado. Parece ter sido escrita por alguém que já sentiu na pele as dificuldades de ser um mero trabalhador assalariado, que não vê outra escolha para sobreviver a não ser fazendo parte do mercado de trabalho, que é a máquina que sustenta um sistema muito maior. Como é trabalhar com música, especificamente no meio independente?
Demente: Acho que a imensa maioria da população sabe o que é isso, não? O problema é o despertar, as pessoas, os trabalhadores... Estão adormecidos, anestesiados pela possibilidade de bolsas, de crédito, de benefícios que não mudam o verdadeiro quadro da situação. Essa música é um grito para acordar. E sobre a sua segunda questão, trabalhar com música punk no Brasil é muito difícil mesmo e é um ato de amor, dá um trabalho do cacete, ninguém ajuda e depois ainda te pede o disco de graça, quer entrar de graça no show... acho que falta respeito e também falta se fazer respeitar. A situação tem que mudar, as pessoas envolvidas na cena têm que entender que fazer parte de algo é para as horas boas e também para as horas ruins e que é preciso solidariedade e união, senão a situação vai continuar como está.
Em 2008, rolou uma turnê do Juventude Maldita pela Europa. Por quais países vocês passaram?
Demente: República Tcheca, Hungria e Eslovênia, países onde fomos muito bem recebidos e esperamos voltar o mais breve possível.
Com quais bandas curtiram ter tocado e como foi a receptividade do público
Demente: Fizemos 11 shows e foi tudo ótimo, a receptividade foi ótima e foi curioso que, apesar de tocarmos em vários shows punks, eram poucas as bandas de punk rock, a maioria era mais crust e grind ou crossover. A cena punk rock estava meio em baixa, mas foi interessantíssimo, porque também tocamos com excelentes bandas de ska, como o Fast Food Orchestra, e fizemos um show emocionante em uma cidade tcheca chamada Usti Nad Labem, junto ao Cólera, que na minha opinião foi o ponto alto da tour e da minha vida com a JM dentre as bandas que tocamos juntos destaco o N.V.U, excelente banda de punk rock tcheca, tipo o DZK de lá.
Do que uma banda precisa para ir tocar no velho continente hoje? Não é só coragem, é?
Demente: Coragem, história, atitude, organização, disposição e também grana pra bancar a tour e as passagens, porque é um risco, não existem garantias. No nosso caso foi muito bom, apesar de serem relativamente poucos shows, mas tô ligado em bandas que tiveram que investir muita nota nas primeiras tours até a coisa dar certo e hoje em dia vira e mexe tão lá. Também gostaria de dizer que o fato de uma banda ir ou não tocar na Europa não faz dela melhor que as outras que não foram. Na verdade eu descobri que isso é muito mais um golpe de marketing do que a realidade, pois muita gente já se ligou que infelizmente brasileiro só dá moral pra uma banda quando os gringos dizem amém, e aí usa disso pra alavancar a carreira da banda. Apenas uma observação, espero que ninguém se ofenda.
Através do selo Rebel Music você lançou, além do material de suas próprias bandas, outros álbuns que incluem nomes de peso como Olho Seco, DZK, Agrotóxico, Invasores de Cérebros, Lixomania e Ordinária Hit... Como você decide o que lançar? Quais são os critérios? Você dá prioridade pra bandas brasileiras?
Demente: Queremos mostrar a verdadeira cena punk de São Paulo. Tem muita gente boa que tá na luta e não tem condições de mostrar a cara. Agora estamos fazendo a coletânea "Punk Rock: Distorção & Resistência Volume II", que é uma parceria da Rebel Music com a Feio Records, e terá além da Juventude Maldita bandas como Excomungados, Pé Sujus, Ruído Negativo, Ataque a Jugular, Armagedom e muitas outras. A cena continua forte e ativa e nós queremos fazer a nossa parte, continuarmos a ser um ponto de união na cena. Estamos aqui para somar, e não subtrair. Essa é a proposta.
O que você planeja lançar nos próximos anos?
Demente: Esse ano sai o compacto novo do Juventude Maldita, da música "Resistência Antifascista". Quanto à coletânea que mencionei, nosso plano é fazer em 3 edições com uma banda clássica como convidada em cada uma, que a princípio seriam o Armagedom e DZK, e a terceira é segredo de Estado por enquanto! As músicas do compacto novo do JM serão lançadas primeiro gratuitamente na net agora no final de janeiro, mês em que completamos 15 anos de estrada, uma por semana, e em alguns meses sai o vinil.
Para o faça você mesmo, o advento total da internet trouxe prós e contras. Normalmente vemos os aspectos positivos, mas tempos assim podem fazer com que bandas verdadeiramente boas sumam, na medida em que não conseguem nenhum retorno à grana investida para registrar seu material. Ninguém quer mais pagar por nada. Vocês lançaram um single virtual em 2002 e continuarão apostando nessa mídia. Como você analisa esse panorama? O que mudou da época em que você começou pra cá?Demente: Tudo mudou e há os prós e os contras. As bandas têm que se adaptar e, no fim, a vontade de se expressar e fazer um som é o que prevalece sempre. Antigamente, recuperávamos uma grana vendendo os CDs, mas a divulgação e exposição das músicas, da cena, das ideias, era tudo menor... Não tocávamos em casas de shows, só em bares e botecos da periferia, associações de bairro, centros culturais, hoje a cena é outra... Melhor? Pior? Não sei. É diferente, e ainda é empolgante tocar, ainda dá prazer, ainda tem uma galera que pira pra caralho, então tamos aí, não se pode parar o tempo! Antes tudo era muito mais difícil, menor, mais solidário... agora tudo é maior, mas ainda me dá um puta tesão quando vamos pra outra cidade e fazemos um show com amigos como o pessoal do DZK, Subviventes, 88 Não!, Sarjeta, Excomungados, Pé Sujus e tantos outros. É do caralho olhar pra trás e ver que tanta coisa mudou, mas que o sentimento das pessoas continua o mesmo, que a essência permanece. Esse sentimento não tem preço e vale mais que vender mil discos.
O som da Juventude carrega forte influência de bandas pioneiras do punk paulista, como Cólera, Inocentes e Garotos Podres. Elas abriram as portas pra um monte de gente e talharam a coisa à maneira tupiniquim. Como você vê essa identidade própria do punk brasileiro? No que ele difere do punk norte-americano, ou do europeu, por exemplo?
Demente: Acho o punk da América Latina muito marcado por ter surgido em uma época de ditaduras e falta de liberdades civis e isso se reflete até hoje nas letras, postura e ideologia. Não posso falar com muita propriedade das cenas de outros países que não vivenciei de perto, mas tenho a impressão que nos EUA, o punk é mais um comportamento social que uma postura política, como é aqui. Acho que a principal diferença, é que num país violento de terceiro mundo, quem está envolvido com o movimento punk tem muita garra e vontade de fazer acontecer, de mudar. É uma galera que levanta a bandeira mesmo, não é só curtir um som e um visual. Aqui a barra é pesada: a polícia bate, os fascistas estão à solta fazendo merda, não tem squats, não tem seguro desemprego, é outra realidade. Ser punk no Brasil não é pra qualquer um não. Quanto ao fato de vivermos em um país subdesenvolvido, isso obviamente se reflete em todas as classes de pessoas, inclusive dentro do movimento punk. Um dos reflexos disso, na minha opinião, é o alto índice de atraso e violência que os movimento punk e afins atravessam há anos, a ignorância generalizada e a preguiça mental institucionalizada também têm seus reflexos no underground.
Você acha que a violência na cena punk, noticiada sob o véu da ignorância pelos veículos de massa, interferem direta ou indiretamente no trabalho das bandas? Apesar do sensacionalismo, não podemos fingir que ela não existe. O Cólera ficou uns tantos anos sem tocar em Sampa por causa disto!
Demente: Claro que sim, mas acho que é preciso pensar de forma mais ampla e ir além das bandas. O punk é muito mais que as bandas punks. A violência que ronda o movimento não atrapalha apenas as bandas, mas a própria existência do movimento punk como um todo, que não consegue se desenvolver e cumprir o papel que se propõe, da forma que se propõe. Somos uma aglomeração de indivíduos que se propõe a mudar o mundo, ou ao menos a nossa própria realidade local, baseados em alguns conceitos comuns como faça você mesmo, autogestão, horizontalidade, socialismo, liberdade individual, respeito às diferenças e ao planeta. Esses indivíduos e ideias se expressam de inúmeras formas além da música e já está mais do que na hora de colocarmos as coisas em seu devido lugar. Música é importante, mas mais que isso, idéias são importantes, atitudes são importantes... O problema é que enquanto há uma parte que pensa e quer agir, há sempre meia dúzia de otários que precisam provar alguma coisa por meio da violência gratuita. Cabe aos próprios punks escolherem qual movimento querem criar e viver, excluírem da sua convivência essas pessoas que não tem nada para adicionar, incapazes de construir qualquer coisa.
Chega de tomar seu tempo, Demente! Deixe um recado para os jovens punks.
Demente: Seja sempre você mesmo, não tente imitar, siga a sua consciência, seja livre já! Cante bravo, não desiste fácil não, somos muitos, num só ideal! Se agitar eu vou sair às ruas e protestar! Tentar de novo se falhar e se vencer comemorar, solidarie-nos! Viva Redson, viva o Cólera, viva os Punks! Viva a Nossa Geração! Nosso contato: www.rebelmusic.com.br / www.facebook.com/estudionoiseterror






















