Rota 54
Entrevista por Wladimyr Cruz em 28/05/2012
Batemos um papo com a banda paulistana Rota 54, conjunto relativamente novo de rock que vem divulgando seu primeiro álbum no circuito independente de SP. Politizados e conscientes de seu papel, o grupo fala sobre a situação sócio-politica mundial, música e cenário indie.
Pra quem não conhece, dê uma apresentada na banda. Quem são, de onde vieram e pra onde vão os rapazes do Rota 54?Caio Uehbe: Então, eu fundei a banda em 2008, com ajuda do Clemente dos Inocentes, que me colocou em contato com músicos na época. Fazia quase um ano que minha antiga banda, o Núcleo Zero, tinha terminado. Ai desse modo entrei em contato com o Kenzo que tocava na banda Salário Mínimo e com o Paulão, ex-baterista do Lambrusco Kids, e junto com um amigo meu o Borghi montamos a banda e começamos a ensaiar e compor, as músicas que estão no disco da banda. Na verdade na atual formação do Rota (54) só resta eu da formação original, mas acredito que isso é algo muito normal em bandas hoje em dia, não é fácil conciliar a rotina com uma banda. O Borghi foi o primeiro a sair e o Hiro acabou entrando como baixista no seu lugar, isto em 2009, já em 2010 o Paulão acabou saindo e ficamos um curto período com o Willian, também na época do Salário Mínino, na bateria. Tivemos uma grande perda no início de 2011 com a morte do nosso guitarrista, o Kenzo, e no mesmo o ano o Ricardo o substitui, assim como o Felipe substitui o Willian na batera.
O som do Rota 54 assume diversas influências, mas fica bem latente o punk 77 e o rock nacional dos 1980, de nomes como Plebe Rude e Ira!. O que o Rota 54 ouve e pesca de influência do rock hoje? Que bandas atuais valem a pena?
Cesar Hiro: As influências vêm de todos os lados, se limitar em estilos ou vertentes é cagada... Como bandas atuais que acho bacana poderia citar Living End, Deal's Gone Bad, Teenage Bottlerocket, o Bombardiers da França, o Pepper Pots, uma banda catalã de vocal feminino com três vocalistas que mescla ska e soul... que eu me lembro acho que só essas.
Caio Uehbe: O que o Hiro disse é bem verdade... acredito que quando você escolhe se tornar músico, fazer música, é uma escolha em que você tem que estar aberto para gêneros que vão além do que o que você toca, isto permite que você e a banda estejam sempre se renovando. Eu particularmente gosto muito de várias vertentes do rock, talvez com exceção do progressivo, assim como adoro música caribenha... cubana e o ska e reggae jamaicano, MPB, samba... de sons novos confesso que ando um pouco desatualizado... acredito que parte disso se deve ao fato de que a cada dia tenho descoberto coisas antigas tão boas que não tenho me interessado tanto pelo que há de novo.
Felipe Boi: De mais novo gosto de Bouncing Souls, Chuva Negra, Colligere, The Mars Volta...
Ricardo Martines: Na verdade, eu costumo ouvir tudo o que tem de bom, sem rotular muito as coisas. Minhas influências vêm de coisas mais antigas, acho que tudo o que é bom não gasta com o tempo.
O grupo tem um álbum lançado já. Depois de lançar um disco, obviamente vem a peregrinação de divulgá-lo. Como está sendo a divulgação dele e quais as dificuldades encontradas após este primeiro estágio, que é o lançamento em si.Ricardo Martines: Dificuldades sempre têm quando se trata de underground, pois dependemos muito da boa vontade das pessoas de ouvir, às vezes é preferível entregar gratuitamente o nosso cd após um show com a expectativa da pessoa ouvir o som no show e querer ouvi-lo novamente em casa do que deixar apenas a maré levar.
Felipe Boi: Eu sinto que uma dificuldade que é geral é fato que a maioria das casas de show querem bandas que levem muita gente não importando se a mesma é boa ou ruim.
Caio Uehbe: O circuito underground é muito vulnerável, cheio de altos e baixos, e isso é uma grande dificuldade para divulgar o trabalho. Casas de show sempre estão abrindo e fechando, nem sempre se encontra lugares pra tocar regularmente. Mas desde que lançamos o CD aceitamos o desafio de tocarmos nos lugares que aparecem pois acredito que o contato com o público é fundamental para a consolidação na cena, algo que pode ser potencializado quando feito em conjunto com as redes sociais.
O principal single do Rota 54 é "Pequeno Garoto Americano", ao menos é a faixa que primeiro nos salta aos ouvidos. A letra desta música levanta pontos sobre a política americana contando uma ficção. Hoje, como vêem a posição dos EUA num planeta cada vez mais globalizado, com Obama a beira da reeleição, a crise econômica americana e a desvalorização do dólar?
Caio Uehbe: Primeiro sobre a canção, ela de fato é uma ficção que faz uma denúncia de uma realidade concreta, que é a hipocrisia da liberdade americana, onde você é livre para expor suas idéias e convicções desde que estejam de acordo com o ponto de vista deles. Essa música foi composta no ano de 2002, em que ocorreu a invasão dos Estados Unidos no Iraque, e em uma das manifestações que estive presente uma das palavras de ordem era Charuto cubano no c... do americano (risos) e no mesmo período me deparei com uma matéria na TV de um estudante nos Estados Unidos que foi proibido de entrar na escola com uma camisa que chamava o Bush de porco... o que achei de muito mal gosto para com os porcos (risos) mas esses dois episódios acabaram me inspirando pra música. Falar sobre os Estados Unidos e sua política é algo que sempre dá a possibilidade de se escrever uma tese de doutorado a respeito... ainda mais eu que sou formado em geografia e sempre me empolgo com esses assuntos (risos). Mas sendo breve, não sou adepto do esquerdismo que não consegue fazer análises conjunturais, portanto, apesar de todas críticas que tenho ao governo Obama e a sua política externa ele é muito melhor que qualquer republicano conservador escroto e dentro do quadro dos democratas é um dos mais progressistas, nesse contexto torço por sua reeleição e por todo simbolismo que ela representa. A grande questão a ser discutida é quem de fato manda hoje nos EUA e no Mundo. As pessoas não percebem o quanto antidemocrática vem se tornando a nossa sociedade a partir do momento que as ordens que determinam nossas vidas vêm de empresas e organizações que só visam à obtenção de um lucro globalizado em detrimento do interesse das populações e dos povos, promovendo uma exploração global e generalizada. Infelizmente a política vem perdendo muito espaço nessa sociedade, assim como o seu poder de transformação, mas acredito que a atual conjuntura latino-americana é um bom apontamento para uma retomada da política e do interesse público em contraponto a esse cenário autoritário global. E sobre a crise dos EUA espero que com uma possível queda futura dessa potência mundial ascenda uma possibilidade mais igualitária e democrática para servir de modelo para o Mundo, já que a imposta pelos Estados Unidos foi um modelo opressor, desigual e autoritário.
Como o Rota 54 faz para se manter artisticamente relevante em 2012 tocando músicas que - num primeiro momento - vem com a simplicidade e o discurso direto do punk rock?
Ricardo Martines: Hoje em dia, os meios de comunicação de massa passam a falsa verdade de que só temos as mesmas porcarias de bandas que não me cabe citar nomes, bandas que só transmitem mensagens vazias e falta de criatividade na hora de compor. Mas como bem sabemos, a maioria das pessoas não gostam desse som mas também não se manifestam para mudar esta situação, vejo muitas bandas por aí que tem a mesma qualidade que os grandes nomes do passado e não tem seu trabalho divulgado por falta de espaço e também por falta de jabá. O Rota 54 mantém sua linha de composição focada na mensagem, temos sim muito o que dizer, mas também temos a técnica e a experiência para transmitir o que pensamos com qualidade.
Cesar Hiro: Não sei se diria com toda certeza que a banda está em uma fase "artisticamente relevante", mais posso afirmar que independente dos lugares que estamos tocando e da freqüência com que isso está acontecendo, a banda tem uma mensagem a passar e uma postura a ser seguida entre os membros. Quanto a simplicidade do punk rock, na minha opinião isso se encaixa melhor dentro do conceito "três acordes" que o rótulo acaba levando, e não ao turbilhão de coisas que envolvem o punk em si, mas em relação a isso até que a gente se vira bem... nossas músicas apresentam uma certa virtuosidade comparadas à músicas de bandas de postura e estética mais agressiva, nada contra esse tipo de música, pelo contrário.
Felipe Boi: Acredito que gostando do que se faz, se divertindo e não tendo preconceito em incorporar influências de qualquer estilo musical que seja. Caio Uehbe: É bem isso o que os três falaram, quando montei a banda o fiz com o intuito de nunca deixar morrer esse caráter revolucionário e jovem do rocknroll, acredito que sempre mantendo isso, e não fazendo por modismos consolidaremos nosso espaço na cena com o tempo.
Quais os planos futuros do grupo?Caio Uehbe: Estamos na fase final de divulgação desse nosso CD, pois já estamos finalizando novas músicas pra entrar em estúdio no meio do ano e gravar um próximo álbum de inéditas. Como a vida independente não é fácil fica difícil fazer previsões precisas, mas espero para no máximo início do ano que vêm estarmos com esse CD pronto em mãos para começarmos a fazer show e eventos para divulgá-lo. Há também a perspectiva de fazemos clipes com essas músicas novas para ajudar na divulgação através de outras mídias.
O que pode ser dito para outras bandas que, como vocês, estão na estrada, divulgando seu trabalho? Quais os erros e acertos e dicas que podem passar?
Ricardo Martines: Para as bandas que iniciam sua jornada agora, apenas tenho a dizer que componham bastante e não tenham medo de errar, pois quanto mais material disponível, maior a satisfação de tocar com o grupo. Duvido que alguém goste de tocar só cover, tocar uma música sua tem muito mais graça.
Cesar Hiro: Fujam enquanto dá tempo! (risos) brincadeira.. Essa contracultura do underground quando pega na gente, parece que pega de jeito e acho que não tem volta. Não é a coisa mais agradável do mundo estar na contramão de tudo, ter que correr atrás de show, fazer uma correria ou outra pela banda de vez em quando, ou quando dá tempo, mais na realidade acho que essa que acaba sendo a graça toda da parada. Tocar às vezes pra poucas pessoas e ainda tirar proveito disso, ter prazer em estar lá mostrando as músicas da banda, passando uma mensagem positiva. Ouvir um elogio de uma pessoa desconhecida, ver uma galera agitando um som. Não sei se existe uma receita pra fazer a coisa virar, se existe gostaria de saber também, mais acho que o grande lance é fazer tudo com empenho e dedicação e ir colhendo os frutos aos poucos. Sentir que está no caminho certo é importante, saber dar um passo de cada vez também, mais nunca se iludir achando que de uma hora pra outra as coisas vão começar a acontecer, pelo menos nesse meio que eu acredito estar inserido já faz um tempo acho que não.
Felipe Batera: Acho que o mais importante é sempre tocar com sinceridade, paixão, cumprir as regras, pensar nas outras bandas e em quem está organizando o show.
Caio Uehbe: É isso aí, faça o que você faz por um propósito, não seja um bitolado e esteja aberto para o mundo e tudo que ele pode te oferecer de positivo, não se preocupe em errar, dê a cara a tapa na busca de seu espaço se você realmente acha que isso é verdadeiro e vale a pena, ficar só em estúdio ou em casa divulgando na internet não basta! Vá ao mundo real, faça o máximo de shows que puder, que só assim você vai conseguir a experiência que lhe é necessária para dar certo! Hasta La Vitória siempre compañeros!






















