Nesta efervescência, percebemos a formação de um caráter em desenvolvimento. Sandbox é como a adolescência para o Guided By Voices. Nele, notamos uma aproximação da grandiosidade pop barulhenta que seria alcançada num futuro não tão distante. O clima nublado e intimista do debut Devil Between My Toes (lançado meses antes deste) ficou um pouco para trás, dando lugar a um clima um pouco mais ensolarado. Sandbox não tem sons inacabados, nem o experimentalismo nonsense de outrora, mas sim 12 canções maquinadas com senso de direção e um tino pop quase britânico. O álbum foi registrado na mesa de 8 canais de Steve Wilbur (que também gravou algumas guitarras), e equipamentos adicionais foram alugados, mostrando que no quesito produção, o cuidado foi maior do que o habitual (para os padrões GBV).
As guitarras encorparam-se, ganhando uma malícia fuzz. O modo como os riffs sutis interagem com a base suja - ornando-a ou fazendo cócegas nela - revelam uma vital influência das bandas do 'college rock'. Os sons estão com estruturas musicais mais bem definidas, baseadas em verso/refrão, fazendo com que a banda soe mais coesa. Robert Pollard também mostra-se mais maduro na construção de suas melodias vocais: canta com entusiasmo e certo desleixo, mostrando que uma saidinha ou outra do tom não é empecilho para não fisgar. Nas letras, ele evita ser direto e prefere ser metafórico. Passagens cotidianas estão entrelaçadas com passagens oníricas, surreais. É uma forma de ocultar ou deixar dúvidas acerca do que é confessional, e do que não é.
Não preciso ir além da primeira faixa para lembrar que o guitarrismo é de muito bom gosto: "Lips of Steel" tem no verso um riff engasgado e repetitivo; no refrão, um riff indie inspirado em Sweet Leaf, do Sabbath. Por cima, uma melodia sonhadora e pegajosa. Grande início! "A Visit to the Creep Doctor" e "Everyday" fazem ecoar a influência do R.E.M. dos primeiros álbuns, mas de uma forma menos apurada e mais espontânea. Nesta última, Bob Pollard encerra sua faixa antes do término do 'fade out' dos instrumentos com um "OK, cut!", que não teve intenção de esconder e ainda parece ostentar. "Barricade" é um big hit cheio de mudanças de clima: começa num tom sombrio, de avalanche emocional (Six bottles of rum/and a kilo full of character change), sobe, desce e cruza várias paisagens até chegar ao clímax (Let me walk/I can stand on my own two feet), fechando com um solinho no feeling digno de tornar o registro intocável. Apropriando-se do timbre de John Lennon, com direito a faixas vocais adicionais gravadas por ele mesmo, Pollard fez uma música que até poderia estar no repertório dos Beatles: a balada folk "Long Distance Man". Outro destaque é "I Certainly Hope Not", que começa numa vibe country rock a lá Creedence e desemboca num refrão power pop perfeito.
Nesta época, os integrantes conciliavam as atividades da banda com o ganha-pão de cada dia, e estavam restritos à trabalhos de estúdio financiados por eles mesmos. Sandbox é um bom prelúdio do que fazer música representa pra esses caras: está repleto de referências e fragmentos de genialidade em erupção combinados à pressa e hiperatividade. Mas não é unanimidade nem mesmo entre os fãs de Guided By Voices. O próprio vocalista o considera um dos mais fracos de toda a discografia. Sou obrigado a discordar: o álbum é excepcional!
As guitarras encorparam-se, ganhando uma malícia fuzz. O modo como os riffs sutis interagem com a base suja - ornando-a ou fazendo cócegas nela - revelam uma vital influência das bandas do 'college rock'. Os sons estão com estruturas musicais mais bem definidas, baseadas em verso/refrão, fazendo com que a banda soe mais coesa. Robert Pollard também mostra-se mais maduro na construção de suas melodias vocais: canta com entusiasmo e certo desleixo, mostrando que uma saidinha ou outra do tom não é empecilho para não fisgar. Nas letras, ele evita ser direto e prefere ser metafórico. Passagens cotidianas estão entrelaçadas com passagens oníricas, surreais. É uma forma de ocultar ou deixar dúvidas acerca do que é confessional, e do que não é.
Não preciso ir além da primeira faixa para lembrar que o guitarrismo é de muito bom gosto: "Lips of Steel" tem no verso um riff engasgado e repetitivo; no refrão, um riff indie inspirado em Sweet Leaf, do Sabbath. Por cima, uma melodia sonhadora e pegajosa. Grande início! "A Visit to the Creep Doctor" e "Everyday" fazem ecoar a influência do R.E.M. dos primeiros álbuns, mas de uma forma menos apurada e mais espontânea. Nesta última, Bob Pollard encerra sua faixa antes do término do 'fade out' dos instrumentos com um "OK, cut!", que não teve intenção de esconder e ainda parece ostentar. "Barricade" é um big hit cheio de mudanças de clima: começa num tom sombrio, de avalanche emocional (Six bottles of rum/and a kilo full of character change), sobe, desce e cruza várias paisagens até chegar ao clímax (Let me walk/I can stand on my own two feet), fechando com um solinho no feeling digno de tornar o registro intocável. Apropriando-se do timbre de John Lennon, com direito a faixas vocais adicionais gravadas por ele mesmo, Pollard fez uma música que até poderia estar no repertório dos Beatles: a balada folk "Long Distance Man". Outro destaque é "I Certainly Hope Not", que começa numa vibe country rock a lá Creedence e desemboca num refrão power pop perfeito.
Nesta época, os integrantes conciliavam as atividades da banda com o ganha-pão de cada dia, e estavam restritos à trabalhos de estúdio financiados por eles mesmos. Sandbox é um bom prelúdio do que fazer música representa pra esses caras: está repleto de referências e fragmentos de genialidade em erupção combinados à pressa e hiperatividade. Mas não é unanimidade nem mesmo entre os fãs de Guided By Voices. O próprio vocalista o considera um dos mais fracos de toda a discografia. Sou obrigado a discordar: o álbum é excepcional!
Enviado por André Honey em 06/06/2012 (Quarta-feira), 07:37
Outras resenhas deste artista:























