No dia 22 de dezembro de 2002, Joe Strummer se sentou para ler, se aconchegou no sofá de sua casa em Broomfield, fechou os olhos e partiu deste mundo. Na época com 50 anos, esposa, duas filhas e uma neta (é... o tempo passa hein vovô?). Escrevo este texto próximo da
data em que ele completaria 60 anos.
Voltamos ao que Joe estava fazendo em seus últimos meses, na época estava trabalhando em um novo disco com sua banda The Mescaleros e coube a eles juntarem os pedaços e terminarem o disco, concluindo as últimas músicas que Joe trabalhou e finalizando seu último trabalho. A maioria dos vocais neste disco são de primeiro take, não havia sobras, nem opções, era necessário extrair do simples e singular o melhor. O resultando final são essas dez faixas citadas no decorrer do texto.
O disco abre com Coma Girl, fincada numa simples melodia e um vocal carregado de lembranças. Quando ouvi os primeiros acordes da guitarra tive a sensação de estar ouvindo um disco do Clash, que bela guitarra e como ela faz falta. Foi o último take de guitarra que Joe gravou e pra quem toca são basicamente três acordes, quantidade nunca foi exemplo de qualidade e poucos entendem isso. Bruce Springsteen chegou a tocá-la abrindo seu show no festival Glastonbury em 2009 (Joe tinha uma relação pessoal com o festival e a letra da música foi inspirada em suas idas ao Glastonbury). É uma das melhores do disco.
A segunda abre espaço para outro estilo que Joe sempre gostou: o reggae. Get Down Moses é um reggae, meio dub - com camadas de guitarra e um baixo que segura a música inteira. Da para perceber que a canção teve um tratamento especial, o que a fez soar grande.
Long Shadow foi uma música que Joe compôs em tributo ao Johnny Cash e segue a linha de voz e violão que Cash seguiu nos seus últimos anos (esta e Redemption Song foram produzidas por Rick Rubin). A faixa foi composta por Joe junto com o guitarrista Smokey Hormel (você provavelmente não o conhece, mas com certeza já ouviu suas guitarras nos discos de artistas como Beck, Norah Jones, Tom Waits, tem uma entrevista interessante com ele sobre a influência da música brasileira, procure). Long Shadow termina com um verso que serve tanto para Joe quanto para o ídolo Johnny Cash: Somewhere in my soul theres always Rock n Roll.
Em seguida vem Arms Aloft, um rock feito para resgatar e levantar aquele que não acreditava em mais nada (pelo menos ele tentou). Fazia tempo que não via Joe soando tão bem e cantando a plenos pulmões versos como I'm gonna pull you up, I'm gonna pull ya round! ou The spirit is our gasoline. Apenas como curiosidade, o Pearl Jam tocou essa em alguns shows de sua turnê PJ20.
Depois do tapa motivacional e dos braços levantados, vem a calma e um pouco melancólica Ramshackle Day Parade, que começa leve e vai crescendo até o fim conforme cada elemento vai sendo acrescentado: bateria, percussão, guitarras e os vocais entoando a frase Ramshackle Day Parade como um mantra fazem dessa uma canção diferente, mas com uma bela e grande melodia.
Em Redemption Song (Bob Marley) a idéia inicial era de um dueto entre ele e Johnny Cash (você encontra este dueto no box Unearthed do Johnny Cash), mas aqui você ouve a versão com os vocais de Joe na integra. E aqui Joe não se limitou apenas a fazer um cover dela, ele a tomou para si e deu sua própria interpretação a música, uma interpretação que desarma qualquer um e torna esta versão um ponto alto em sua carreira e legado.
All In A Day talvez seja a que mais lembra os discos anteriores com o Mescaleros, meio rock, meio world music, dançante, depois de duas baladas ela da uma sacudida no disco. A próxima é Burnin' Streets, nesta canção a frase "londons burning", cantada com raiva e fúria no passado dá lugar a um tom um pouco mais calmo e reflexivo ("london is burning, don't tell the queen"). Em Midnight Jam, não havia nenhum vocal gravado e o que ouvimos são trechos de sua voz no comando de sua rádio na BBC, a "Joe Strummer's London Calling", o resultado é uma grande faixa viajante, acompanhando a narrativa de Joe. A melodia era muito boa para ter sido descartada e a idéia de usar os trechos a salvou para entrar no disco.
O álbum se encerra com Silver And Gold, originalmente chamada Before I Grow Too Old de Bobby Charles e fala sobre alguém que espera fazer tudo que gostaria, o certo e o errado, antes que cresça demais. Gravada em um único take no qual Joe solta no final: Ok! thats a take, sua deixa para dizer que já estava satisfeito.
Streetcore foi lançado em 2003, um ano após a morte de Joe Strummer e é o terceiro disco com o The Mescaleros. Mesmo sua produção tendo sida interrompida abruptamente, o disco não chega a soar inacabado. Joe costumava ficar no estúdio madrugadas procurando uma batida interessante e quando a encontrava ligava para algum músico na mesma hora para que o acompanhasse no estúdio, esse era o seu ritmo de trabalho. No encarte você tem a visão de como era o estúdio, uma bela bagunça mostrando ao fundo uma já bem gasta Fender Telecaster, frases jogadas em meio as fotos (Nothing in the world can take the place of persistence ou One Day truth + justice will reign) feitas por Joe e sua esposa Luce e letras das músicas escritas a mão.
Joe Strummer se quebrou em pedaços depois do fim do Clash e apenas com os anos ele foi os juntando. Um dia conheceu um adolescente que nunca havia ouvido falar do The Clash e foi esse o momento que seus pés tocaram o chão novamente. Você tem uma guitarra? Falta uma corda? Não importa, bata em sua guitarra e tente extrair o que você considere verdadeiro e honesto. Joe não era nenhum guitar hero (seu guitar hero era Mick Jones), nenhum cantor fenomenal (dane-se! sua voz virou um clássico), mas fazia sua música com a motivação certa e o espírito de sempre: olhando para frente. Neste último registro ele encontrou o equilíbrio entre o passado, seu momento presente e talvez seu futuro. Reciclou suas influências e voltou ao básico, estava em paz consigo. O futuro não esta escrito e o único responsável por escrevê-lo é você. Joe Strummer fez sua parte. Longa vida ao eterno punk rock WARLORD!
Voltamos ao que Joe estava fazendo em seus últimos meses, na época estava trabalhando em um novo disco com sua banda The Mescaleros e coube a eles juntarem os pedaços e terminarem o disco, concluindo as últimas músicas que Joe trabalhou e finalizando seu último trabalho. A maioria dos vocais neste disco são de primeiro take, não havia sobras, nem opções, era necessário extrair do simples e singular o melhor. O resultando final são essas dez faixas citadas no decorrer do texto.
O disco abre com Coma Girl, fincada numa simples melodia e um vocal carregado de lembranças. Quando ouvi os primeiros acordes da guitarra tive a sensação de estar ouvindo um disco do Clash, que bela guitarra e como ela faz falta. Foi o último take de guitarra que Joe gravou e pra quem toca são basicamente três acordes, quantidade nunca foi exemplo de qualidade e poucos entendem isso. Bruce Springsteen chegou a tocá-la abrindo seu show no festival Glastonbury em 2009 (Joe tinha uma relação pessoal com o festival e a letra da música foi inspirada em suas idas ao Glastonbury). É uma das melhores do disco.
A segunda abre espaço para outro estilo que Joe sempre gostou: o reggae. Get Down Moses é um reggae, meio dub - com camadas de guitarra e um baixo que segura a música inteira. Da para perceber que a canção teve um tratamento especial, o que a fez soar grande.
Long Shadow foi uma música que Joe compôs em tributo ao Johnny Cash e segue a linha de voz e violão que Cash seguiu nos seus últimos anos (esta e Redemption Song foram produzidas por Rick Rubin). A faixa foi composta por Joe junto com o guitarrista Smokey Hormel (você provavelmente não o conhece, mas com certeza já ouviu suas guitarras nos discos de artistas como Beck, Norah Jones, Tom Waits, tem uma entrevista interessante com ele sobre a influência da música brasileira, procure). Long Shadow termina com um verso que serve tanto para Joe quanto para o ídolo Johnny Cash: Somewhere in my soul theres always Rock n Roll.
Em seguida vem Arms Aloft, um rock feito para resgatar e levantar aquele que não acreditava em mais nada (pelo menos ele tentou). Fazia tempo que não via Joe soando tão bem e cantando a plenos pulmões versos como I'm gonna pull you up, I'm gonna pull ya round! ou The spirit is our gasoline. Apenas como curiosidade, o Pearl Jam tocou essa em alguns shows de sua turnê PJ20.
Depois do tapa motivacional e dos braços levantados, vem a calma e um pouco melancólica Ramshackle Day Parade, que começa leve e vai crescendo até o fim conforme cada elemento vai sendo acrescentado: bateria, percussão, guitarras e os vocais entoando a frase Ramshackle Day Parade como um mantra fazem dessa uma canção diferente, mas com uma bela e grande melodia.
Em Redemption Song (Bob Marley) a idéia inicial era de um dueto entre ele e Johnny Cash (você encontra este dueto no box Unearthed do Johnny Cash), mas aqui você ouve a versão com os vocais de Joe na integra. E aqui Joe não se limitou apenas a fazer um cover dela, ele a tomou para si e deu sua própria interpretação a música, uma interpretação que desarma qualquer um e torna esta versão um ponto alto em sua carreira e legado.
All In A Day talvez seja a que mais lembra os discos anteriores com o Mescaleros, meio rock, meio world music, dançante, depois de duas baladas ela da uma sacudida no disco. A próxima é Burnin' Streets, nesta canção a frase "londons burning", cantada com raiva e fúria no passado dá lugar a um tom um pouco mais calmo e reflexivo ("london is burning, don't tell the queen"). Em Midnight Jam, não havia nenhum vocal gravado e o que ouvimos são trechos de sua voz no comando de sua rádio na BBC, a "Joe Strummer's London Calling", o resultado é uma grande faixa viajante, acompanhando a narrativa de Joe. A melodia era muito boa para ter sido descartada e a idéia de usar os trechos a salvou para entrar no disco.
O álbum se encerra com Silver And Gold, originalmente chamada Before I Grow Too Old de Bobby Charles e fala sobre alguém que espera fazer tudo que gostaria, o certo e o errado, antes que cresça demais. Gravada em um único take no qual Joe solta no final: Ok! thats a take, sua deixa para dizer que já estava satisfeito.
Streetcore foi lançado em 2003, um ano após a morte de Joe Strummer e é o terceiro disco com o The Mescaleros. Mesmo sua produção tendo sida interrompida abruptamente, o disco não chega a soar inacabado. Joe costumava ficar no estúdio madrugadas procurando uma batida interessante e quando a encontrava ligava para algum músico na mesma hora para que o acompanhasse no estúdio, esse era o seu ritmo de trabalho. No encarte você tem a visão de como era o estúdio, uma bela bagunça mostrando ao fundo uma já bem gasta Fender Telecaster, frases jogadas em meio as fotos (Nothing in the world can take the place of persistence ou One Day truth + justice will reign) feitas por Joe e sua esposa Luce e letras das músicas escritas a mão.
Joe Strummer se quebrou em pedaços depois do fim do Clash e apenas com os anos ele foi os juntando. Um dia conheceu um adolescente que nunca havia ouvido falar do The Clash e foi esse o momento que seus pés tocaram o chão novamente. Você tem uma guitarra? Falta uma corda? Não importa, bata em sua guitarra e tente extrair o que você considere verdadeiro e honesto. Joe não era nenhum guitar hero (seu guitar hero era Mick Jones), nenhum cantor fenomenal (dane-se! sua voz virou um clássico), mas fazia sua música com a motivação certa e o espírito de sempre: olhando para frente. Neste último registro ele encontrou o equilíbrio entre o passado, seu momento presente e talvez seu futuro. Reciclou suas influências e voltou ao básico, estava em paz consigo. O futuro não esta escrito e o único responsável por escrevê-lo é você. Joe Strummer fez sua parte. Longa vida ao eterno punk rock WARLORD!
Enviado por Caio Felipe em 17/08/2012 (Sexta-feira), 05:23






















