The Glenn Branca Ensemble em SP
25/07/2012 - Sesc Belenzinho - São Paulo/SP
O palco do teatro do Sesc Belenzinho agregou na noite desta quarta-feira um dos maiores espetáculos por mim já visto: The Glenn Branca Ensemble.
Era para ter sido um típico e tedioso dia-do-meio-da-semana, como todas as quartas gostam de ser; minha odisseia diária era ir até o Poupatempo fazer a segunda via do meu RG, que havia sido usurpado por algum desconhecido e enigmático ser invisível. Como de costume, acordei tarde, tomei meu café e conectei o Fezesbook (é, vida de vagabundo é deprimente mesmo).
Para meu espanto, meu grande amigo de várias jornadas e conterrâneo em pensamentos, Sauron, havia me passado a informação de que o maestro guitarrístico da No Wave, Glenn Branca, estaria em São Paulo para duas apresentações no Sesc perto de casa. Era uma oportunidade única. O ralo dinheiro que eu possuía para fazer o RG teve que ser utilizado para um bem maior. No Poupatempo, assinei o atestado de pobreza. Depois, rumei para o show. Naquele momento eu era um pobre realizado.
O show estava marcado para as 21 horas, era a última noite da apresentação em que tocariam na íntegra o álbum "The Ascension: The Sequel", de 2010, que como o nome já diz, trata-se de uma sequência para o clássico disco de 81, The Ascension (que contava com Lee Ranaldo, do Sonic Youth, entre outros, na guitarra), o segundo da carreira de Branca.
Depois de estudar teatro (suas primeiras composições musicais foram para peças teatrais), Glenn se muda para Nova York em 1976, onde abandona de vez as cênicas e passa a se dedicar integralmente à música. Lá, ele entra em contato com uma nova realidade: a efervescente cena de Nova York do final dos anos 70, com seus CBGB's e suas cultuadas bandas de punk rock, paisagem ideal para o aparecimento de uma das propostas musicais mais caóticas e transgressoras da época. A princípio, a No Wave não se baseava apenas na música, reunia em torno de si diversos artistas de múltiplos formatos. Porém, creio que a música talvez tenha sido o seu maior legado, o que melhor a exprimiu. Bandas como DNA e Mars se embebiam de atitude punk e vomitavam uma nova proposta de música experimental, ironizando e invertendo os padrões do rock tradicional. Glenn Branca também compartia desse conceito e contribuiu com seu tratamento inovador para com a guitarra elétrica. Suas composições para o instrumento são, no mínimo, geniais e exploram todas as sensações e texturas sonoras que este pode proporcionar.
Afinações incomuns, experimentalismos com volume e distorção, sustentações desregradas, timbres inusitados, encadeamentos harmônicos, afinidades com a música atonal e microtonal; tudo isso, utilizado de forma originalíssima, compõe parte do cenário hipnótico e transgressor da arte de Glenn Branca, nele podemos notar referências à música clássica, de vanguarda, e ao rock, tudo bem mesclado e integrado.
Por seu Ensemble, criado em 79, já transitaram inúmeros artistas, e imagino que deva ser uma experiência magnífica e engrandecedora poder tocar em um conjunto de tal complexidade. Com certeza, as percepções musicais devem mudar, ou melhor, ampliar (se até para o público que somente escuta sua obra, sem participar, elas já expandem). As músicas presentes no álbum The Ascension: The Sequel são composições instrumentais para quatro guitarras, um baixo e bateria, e foram interpretadas magistralmente na apresentação de São Paulo.
Pouco depois das 21h, os músicos adentraram o palco, são eles Eric Hubel, Greg McMullen, Ben Miller e Regina Bloor (esposa de Branca) nas guitarras, Arad Evans no baixo e Owen Weaver na batera, além do maestro Glenn, que se posta de costas para a plateia, para assim reger seus músicos. O clima é de descontração, Glenn brinca com os companheiros, entorna uns goles de vinho ou de qualquer outro líquido alcoólico. A própria relação entre eles é algo fora dos padrões, longe dos formalismos exacerbados e da seriedade de uma orquestra comum.
Eu já me encontrava acomodado em meu assento, observando como os músicos interagiam, quando, de repente, sem mais nem menos, começa a primeira música, The Tone Row That Ruled The World. Imediatamente todos são tirados de sua órbita particular e submergidos em um universo musical vertiginoso. O volume altíssimo faz com que as estrondosas guitarras adquiram ares apocalípticos. É impossível não ficar estupefato com o que acontecia ali, a música é poderosa. No centro, Glenn gesticula como um maníaco para os seus músicos que, competentes e empolgados, empunhavam suas guitarras com vigor e se concentravam entre a tarefa de seguir as partituras (sim, tinham até partituras) e as orientações gestuais do maestro, que coordenavam a intensidade das músicas.
A apresentação prosseguiu com as ótimas Carbon Monoxide, com seus peculiares harmônicos que nos fazem notar como bandas como Sonic Youth possuem direta influência da música de Branca, e Quadratonic. A bateria também exerce um papel importante na obra, mantendo o ritmo tribal e pesado, ritualístico, enquanto as guitarras jorram tempestuosas umas sobre as outras. Destaque para a quarta música, Lesson n°3 (tribute for Steve Reich), com suas guitarras entrecortantes, que começam calmas e vão progressivamente se intensificando, cada vez mais, até culminar em um esporro transcendental. No fim, o público extasiado bate palmas e urra como um animal.
Depois segue a épica The Blood, com seus 20 minutos e suas inúmeras variações de volume e intensidade. As músicas podem, por vezes, parecer caóticas, mas, na real, por trás do caos aparente, há um barulho extremamente coeso. Tudo estava muito bem ensaiado e os músicos sabiam perfeitamente o que estavam fazendo, isso se percebe quando havia uma mudança repentina no andamento ou uma troca drástica de nota, e todos mudavam na mesma hora!
O maestro, cada vez mais possuído, conduz sua orquestra para mais uma catarse, a última da noite. Lost Chords encerra o espetáculo com estilo. Quase no fim da música, Glenn, a esta altura todo ensopado de suor, deixa o palco e se inclina em um dos cantos do teatro, encosta a cabeça na parede e lá permanece, enquanto os músicos ficam livres para improvisar o que bem quiserem, e fazem uma barulheira fenomenal e inspiradora, aliás, todos parecem estar se divertindo muito. Glenn regressa, ensandecido, para encerrar, dá um chute no pedestal, derruba as partituras no chão e vai embora meio que cambaleando. O espetáculo mais insano que já vi havia chegado ao fim.
Saí de lá absorto, muita coisa havia acontecido, peguei o metrô ainda com as guitarradas (como diz Sauron) na cabeça. Na rua, elas voltavam a mim, eu ouvia solos de guitarra saindo dos bueiros, e em um deles um rato, cujos olhos vermelhos cintilavam na escuridão, espreitava a minha jornada.
Era para ter sido um típico e tedioso dia-do-meio-da-semana, como todas as quartas gostam de ser; minha odisseia diária era ir até o Poupatempo fazer a segunda via do meu RG, que havia sido usurpado por algum desconhecido e enigmático ser invisível. Como de costume, acordei tarde, tomei meu café e conectei o Fezesbook (é, vida de vagabundo é deprimente mesmo).
Para meu espanto, meu grande amigo de várias jornadas e conterrâneo em pensamentos, Sauron, havia me passado a informação de que o maestro guitarrístico da No Wave, Glenn Branca, estaria em São Paulo para duas apresentações no Sesc perto de casa. Era uma oportunidade única. O ralo dinheiro que eu possuía para fazer o RG teve que ser utilizado para um bem maior. No Poupatempo, assinei o atestado de pobreza. Depois, rumei para o show. Naquele momento eu era um pobre realizado.
O show estava marcado para as 21 horas, era a última noite da apresentação em que tocariam na íntegra o álbum "The Ascension: The Sequel", de 2010, que como o nome já diz, trata-se de uma sequência para o clássico disco de 81, The Ascension (que contava com Lee Ranaldo, do Sonic Youth, entre outros, na guitarra), o segundo da carreira de Branca.
Depois de estudar teatro (suas primeiras composições musicais foram para peças teatrais), Glenn se muda para Nova York em 1976, onde abandona de vez as cênicas e passa a se dedicar integralmente à música. Lá, ele entra em contato com uma nova realidade: a efervescente cena de Nova York do final dos anos 70, com seus CBGB's e suas cultuadas bandas de punk rock, paisagem ideal para o aparecimento de uma das propostas musicais mais caóticas e transgressoras da época. A princípio, a No Wave não se baseava apenas na música, reunia em torno de si diversos artistas de múltiplos formatos. Porém, creio que a música talvez tenha sido o seu maior legado, o que melhor a exprimiu. Bandas como DNA e Mars se embebiam de atitude punk e vomitavam uma nova proposta de música experimental, ironizando e invertendo os padrões do rock tradicional. Glenn Branca também compartia desse conceito e contribuiu com seu tratamento inovador para com a guitarra elétrica. Suas composições para o instrumento são, no mínimo, geniais e exploram todas as sensações e texturas sonoras que este pode proporcionar.
Afinações incomuns, experimentalismos com volume e distorção, sustentações desregradas, timbres inusitados, encadeamentos harmônicos, afinidades com a música atonal e microtonal; tudo isso, utilizado de forma originalíssima, compõe parte do cenário hipnótico e transgressor da arte de Glenn Branca, nele podemos notar referências à música clássica, de vanguarda, e ao rock, tudo bem mesclado e integrado.
Por seu Ensemble, criado em 79, já transitaram inúmeros artistas, e imagino que deva ser uma experiência magnífica e engrandecedora poder tocar em um conjunto de tal complexidade. Com certeza, as percepções musicais devem mudar, ou melhor, ampliar (se até para o público que somente escuta sua obra, sem participar, elas já expandem). As músicas presentes no álbum The Ascension: The Sequel são composições instrumentais para quatro guitarras, um baixo e bateria, e foram interpretadas magistralmente na apresentação de São Paulo.
Pouco depois das 21h, os músicos adentraram o palco, são eles Eric Hubel, Greg McMullen, Ben Miller e Regina Bloor (esposa de Branca) nas guitarras, Arad Evans no baixo e Owen Weaver na batera, além do maestro Glenn, que se posta de costas para a plateia, para assim reger seus músicos. O clima é de descontração, Glenn brinca com os companheiros, entorna uns goles de vinho ou de qualquer outro líquido alcoólico. A própria relação entre eles é algo fora dos padrões, longe dos formalismos exacerbados e da seriedade de uma orquestra comum.
Eu já me encontrava acomodado em meu assento, observando como os músicos interagiam, quando, de repente, sem mais nem menos, começa a primeira música, The Tone Row That Ruled The World. Imediatamente todos são tirados de sua órbita particular e submergidos em um universo musical vertiginoso. O volume altíssimo faz com que as estrondosas guitarras adquiram ares apocalípticos. É impossível não ficar estupefato com o que acontecia ali, a música é poderosa. No centro, Glenn gesticula como um maníaco para os seus músicos que, competentes e empolgados, empunhavam suas guitarras com vigor e se concentravam entre a tarefa de seguir as partituras (sim, tinham até partituras) e as orientações gestuais do maestro, que coordenavam a intensidade das músicas.
A apresentação prosseguiu com as ótimas Carbon Monoxide, com seus peculiares harmônicos que nos fazem notar como bandas como Sonic Youth possuem direta influência da música de Branca, e Quadratonic. A bateria também exerce um papel importante na obra, mantendo o ritmo tribal e pesado, ritualístico, enquanto as guitarras jorram tempestuosas umas sobre as outras. Destaque para a quarta música, Lesson n°3 (tribute for Steve Reich), com suas guitarras entrecortantes, que começam calmas e vão progressivamente se intensificando, cada vez mais, até culminar em um esporro transcendental. No fim, o público extasiado bate palmas e urra como um animal.
Depois segue a épica The Blood, com seus 20 minutos e suas inúmeras variações de volume e intensidade. As músicas podem, por vezes, parecer caóticas, mas, na real, por trás do caos aparente, há um barulho extremamente coeso. Tudo estava muito bem ensaiado e os músicos sabiam perfeitamente o que estavam fazendo, isso se percebe quando havia uma mudança repentina no andamento ou uma troca drástica de nota, e todos mudavam na mesma hora!
O maestro, cada vez mais possuído, conduz sua orquestra para mais uma catarse, a última da noite. Lost Chords encerra o espetáculo com estilo. Quase no fim da música, Glenn, a esta altura todo ensopado de suor, deixa o palco e se inclina em um dos cantos do teatro, encosta a cabeça na parede e lá permanece, enquanto os músicos ficam livres para improvisar o que bem quiserem, e fazem uma barulheira fenomenal e inspiradora, aliás, todos parecem estar se divertindo muito. Glenn regressa, ensandecido, para encerrar, dá um chute no pedestal, derruba as partituras no chão e vai embora meio que cambaleando. O espetáculo mais insano que já vi havia chegado ao fim.
Saí de lá absorto, muita coisa havia acontecido, peguei o metrô ainda com as guitarradas (como diz Sauron) na cabeça. Na rua, elas voltavam a mim, eu ouvia solos de guitarra saindo dos bueiros, e em um deles um rato, cujos olhos vermelhos cintilavam na escuridão, espreitava a minha jornada.
Enviado por Thar Hernandez
























